“Acabam os heróis, e também acabam as memórias das suas ações; aniquilam-se os bronzes, em que se gravam os combates; corrompem-se os mármores, em que se esculpem os triunfos: e apesar dos milagres da estampa, também se desvanecem as cadências da prosa, em que se descrevem as emprêsas, e se dissipam as harmonias do verso, em que se depositam as vitórias: tudo cede à voracidade cruel do tempo. Acabam-se as tradições muito antes que acabe o mundo; porque a ordem dos sucessos não se inclui na fábrica do Universo; é coisa exterior, e indiferente. Os monumentos, que fazem da história a melhor parte, e a mais visível, não só se estragam, mas desaparecem, e de tal sorte, que nem vestígios deixam por onde ao menos lhes recordemos as ruínas. Não têm mais duração as cinzas dos heróis ; porque as mesmas urnas, que as escondem, se desfazem, e os mesmos epitáfios, por mais que sejam profundos os caracteres, insensìvelmente vão fugindo aos nossos olhos, até que se apagam totalmente. Ainda as coisas inanimadas, parece que têm um tempo certo de vida: as pedras, de que se formam os padrões, vão perdendo a união das suas partes, em que consiste a sua dureza, até que vêm a reduzir-se ao princípio comum de tudo; terra, e pó. Por isso é loucura sacrificar a vida por eternizar o nome; porque dos mesmos heróis também morrem o nome.”

(Excerto do livro “Reflexões sobre a vaidade dos homens” de Matias Aires de Ramos da Silva)